sexta-feira, 31 de julho de 2009

Memorial

Memorial

"Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgamos passar sem tê-los vivido, aqueles que passamos com um livro preferido".

Marcel Proust, in 'O Prazer da Leitura

Escrever sobre minhas experiências com a leitura e a escrita me traz recordações não muito agradáveis, devido a forma como isso aconteceu. Recordo-me que a minha primeira escola era uma olaria (lugar onde se faz tijolo) que ficava à beira do rio em Queimadas-BA.
O meu primeiro contato com as letras foi através do ABC – um livro pequeno que continha as letras do alfabeto, sílabas e palavras. Naquela época, ele era utilizado para alfabetizar.
O processo de alfabetização ocorria da seguinte forma a professora marcava a parte que deveríamos decorar - lição e em casa nós estudavamos e no dia seguinte apresentavámos para professora o que tínhamos aprendido. A professora chamava cada um dos alunos a sua mesa e mandava que a gente lesse apontando a letra para ela saber que sabíamos reconhecer as letras ou silabas.
Nesse processo, nós aprendíamos primeiro as vogais e em seguida as consoantes, depois passávamos para formação de silabas e palavras, logo após fazíamos a leitura soletrada mais ou menos assim: cha+co =cha+co+la+co+la+co+tei+ra + chaculateira. Esse método era muito difícil, pois quando chegávamos ao final da palavra já tínhamos esquecido o início. Depois dessa etapa passávamos para a cartilha: Vivi viu a uva.
Lembro-me que uma vez fiquei duas semanas na mesma lição por que não acertava dizer a palavra abóbora. Eu dizia abrobra, abobra, aboborá esse momento ficou marcado porque só acertei dizer no dia que a professora quando me chamou levantou uma régua enorme, isso significava que se eu não acertasse naquele dia eu apanharia, então quando olhei para régua não sei como a palavra abóbora saiu, mas em seguida voltei a dizer abroba.
Não me lembro de ter vivenciado a preocupação em ensinar/aprender a ler e escreve em minha comunidade e nem na minha escola.
Naquela época, eu só tinha contato com a escrita na escola. Os únicos materiais que me colocava em contato com a palavra escrita era o ABC e a cartilha. O que predominava era oralidade. Para minha comunidade, quem sabia contar boas histórias era uma das pessoas mais importante daquele povo.
Diante disso, é notavel que ler histórias para as crianças não fazia parte da nossa cultura. Leitura e escrita era algo dispensavel das nossas vidas. Textos orais sim, eram importantes para nós. Ouvir histórias era evento importante e tinha hora e publico fiel. Todas as noites das 18h00min às 20h00min, pois depois dessa hora todas as pessoas iam dormir.
Naquela época, ler e escrever não tinha significado para minha família. A escola era vista como uma possibilidade de ascender na vida. Aprender a fazer as quatro operações era mais importante que aprender a ler e escrever.
Diferente do meu tempo de criança, hoje a escola disponibiliza os mais variados gêneros textuais: contos, poemas, romances, novelas, peça teatrais, além dos textos que circulam socialmente.
Os tempos mudaram e quem sabe ler e escrever tem o poder do uso da palavra. Atualmente alguns professores já trabalham tanto a escrita como a leitura considerando as condições de produção de texto: para quem se escreve? O que se escreve? Para que se escreve? Quando se escreve?
Atualmente nas escolas aprende-se a ler e a escrever e ler e escreve para aprender, pois acredita-se que a ensinar ler e escrever é dar condições do aluno se apropriar dos conhecimentos historicamente construído e utilizá-lo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário